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Histórias

“Você está chorando porque não gosta de mulher?”

Meu nome é Clarice Cruz Pires, completei 70 anos em 2021. E tenho três filhos. O Yuri, meu filho do meio, é gay e a vida nem sempre foi fácil para ele durante a infância e a adolescência.

Quando ele tinha 6 anos de idade, fiquei viúva. O jeito foi ir à luta para criar e educar os três filhos sozinha. Toda mulher nessa situação sabe que a gente faz o que pode e nem sempre consegue ter muito tempo para dedicar aos filhos. Mesmo assim, eu sempre me preocupei porque o Yuri era muito retraído. Ele estava sempre quieto e triste, mesmo nas festas da família.

Um dia, ele tinha pouco mais de 18 anos de idade e tinha começado a trabalhar, quando percebi seu choro, no quarto. Fui lá ver o que tinha acontecido, mas ele não queria me contar. Dizia apenas que sentia vergonha. Na hora, como um estalo, eu perguntei: “É porque você não gosta de mulher?”

Ele me olhou espantado, nos abraçamos e choramos juntos. Acho que ele chorou de alívio. Eu, de medo. Tive muito medo de ele ser maltratado.

Yuri sempre foi diferente dos irmãos. Só brincava com meninas, as primas, adorava dançar as músicas do Ney Matogrosso, andava na ponta dos pés.  Mas talvez porque eu trabalhasse demais, talvez por ignorância ou até mesmo porque não quisesse enxergar, nunca tínhamos conversado sobre a orientação sexual dele.

No dia seguinte, faltamos os dois ao trabalho e fomos passar o dia no Parque do Piqueri, em São Paulo. Lá, conversamos muito, ele me contou que tinha medo de não ser aceito pelo irmão mais velho. Acho que, na cabeça dele, o irmão ocupava um pouco o papel de pai.

Mas ele não precisava se preocupar. Ao saber da homossexualidade do irmão – foi minha irmã, sua tia, quem contou –, meu filho mais velho abraçou o Yuri e disse que ia defendê-lo sempre que fosse preciso. Eles estavam juntos. Essa foi uma grande alegria para mim.

E assim o tempo passou. Quando Yuri tinha 30 anos de idade, eu soube algo do passado dele que me chocou. No começo da adolescência, Yuri sofreu homofobia na escola. O professor de francês do colégio incentivava os alunos a rirem do meu filho enquanto escrevia a palavra bambi na lousa.

Yuri chegou a reclamar da atitude do professor com a direção. Mas a reclamação se voltou contra ele: se continuasse falando mal do professor, disse a madre superiora, seria expulso do colégio, onde estudava com bolsa desde que meu marido falecera.

Na hora em que eu soube disso, senti um nó enorme na garganta. Tanto tempo de sofrimento… Então, comecei a reagir. Passei a pesquisar onde estava aquele professor. Demorou quatro meses para encontrá-lo, descobrir o endereço dele, mas consegui.

Toquei a campainha, ele atendeu. Velho já, com ar de cansado. Eu perguntei se ele lembrava do Yuri, do que tinha feito com o meu filho. Que tipo de professor era ele?

Para minha surpresa, ele disse que lembrava, sim, e que se sentia muito culpado pelo que tinha feito. Queria falar com Yuri, se desculpar.

Mas meu filho não quis reviver aquela lembrança. Ainda doía.

Por um tempo me senti culpada. Se eu tivesse notado, meu filho não teria sofrido como sofreu. Mas assim que falei com o professor, esse sentimento de culpa desapareceu, sumiu o nó da minha garganta. Acho que toda mãe da diversidade entende isso. Ser incapaz de proteger nossos filhos é uma coisa terrível.

E foi assim que eu fui me entendendo e me recompondo com meu passado. Eu aceitei meu filho no momento em que soube que estava grávida dele. O que precisei aprender foi como caminhar ao seu lado.

Depoimento de Clarice Cruz

Coordenadora das Mães em São Paulo

Depoimento de Clarice Cruz
É lindo o caminho de quem se sabe amado

Hoje à tarde, meu filho sentou pra lanchar comigo. Durante anos  as noites de quarta eram chamadas de “noite das garotas” e faziam parte de um rolezinho obrigatório regado a gordura saturada e suco de laranja sem açúcar…ou seja, não havia regras.

Hoje, sentamos para comer juntinhos e na hora do tin-tin amiga, eu ouvi um “mãe, é amigo”… ops, amigo! desculpaê, as vezes, escapa!

Enquanto comíamos, olhei para ele e vi a minha criança de sempre!

Que gosta de meter os pés nas poças d’água que a chuva deixa…

que tem uma curiosidade maior que o mundo…

que fica um tempão no espelho ajeitando o cabelo…

que passa o dia aperreando o gato e fugindo dele.

Meu filho ainda gosta de matemática e diz orgulhoso que eu o ensinei a ler. Continuamos lendo 2 páginas de alguma coisa toda noite, e como sempre, lhe dou um beijo, um abraço e um afucho na hora de dormir.

Adoraria mantê-lo na proteção de meu ventre e de meu abraço para sempre, mas fico toda orgulhosa quando o vejo se apropriar de quem é, com o olhar confiante de quem gosta do que vê!

No fim, para além de meia dúzia de pronomes e umas peças de roupa, quase nada mudou. Nem o cheiro do cabelo, nem o som do sorriso, nem a doçura da nossa amizade…meu menino sempre esteve ali.

Hoje lanchamos em paz, mamãe-e-filhinho! Amanhã  retornaremos à vida e aos olhares gelados de quem aponta e diz: É falta de mãe!

Pois eu respondo: falta de mãe é que não é! É presença de mãe! É presença de amor de mãe que acolhe o filho, seja ele quem for! É coração de mãe, grande, gigante, onde sempre cabe um pouco mais de amor!

É lindo o caminho de quem se sabe amado!

Acolham e protejam as crianças trans.

Poema de Danielle Santana

Aracaju, SE

Poema de Danielle Santana
"Mães como eu, que perderam seus filhos para a homofobia, não podem se dar ao luxo de desistir"

“Toda vez que tenho de contar essa história, eu sofro. Mas eu não me negaria a falar nesse espaço porque também sou mãe pela diversidade. Então, essa é a história do meu filho, meu caçula Alexandre, que morreu precocemente  aos 14 anos de idade.

Ele era um menino lindo. Tão bonito que chamava a atenção nas ruas de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, onde nasceu. Adorava ler, o meu filho, lia diariamente os livros que ganhava do avô.  Era independente, carinhoso e gentil. Cheio de vida.

Como eu já disse em algumas entrevistas, às vezes acordo e sinto a pele do meu filho próxima à minha. Quando tinha muita saudade, quando ficava insuportável, ia cheirar as roupas dele, no armário. Agora, quase doze anos depois, este prazer se apagou.

Alexandre saía da casa de uma amiga quando foi espancado, torturado e assassinado por três homens que ainda estão livres, não foram julgados e, por isso, não foram condenados por um crime que teve todos os requintes de crueldade possíveis. A polícia os encontrou, os indiciou e os ligou ao assassinato. Mas eles continuam livres. Enquanto não houver um fato novo, que faça reabrir o caso, eles continuarão soltos. Como pode uma coisa dessa? Mataram uma criança feliz, de bem com a vida, que não fazia mal a ninguém, por puro preconceito.

Quando me perguntam se foi crime de homofobia, eu digo que sim, foi essa a conclusão da polícia. Nós, mães, sempre sabemos sobre nossos filhos, não é? O Alexandre brincava de todas as brincadeiras de meninos e também convivia com duas meninas, sua irmã Paula e sua prima Ana Clara. Então, ele não teve tempo de dizer com todas as letras do arco-íris que ele seria gay. A verdade é que ele ainda estava se descobrindo.

Nessa passagem de tempo, vi outras mães que passaram pelo mesmo sofrimento. A dor delas é também a minha. A elas, eu peço que não desistam, por mais difícil que seja. Não podemos nos dar a esse luxo. Temos que nos unir e lutar para que outros casos não venham mais a acontecer.

No meio da pandemia, a muralista Rafa Mon pintou o rosto do Alexandre em um grande painel no bairro de São Cristóvão. É um trabalho lindo, colorido e alegre. Um trabalho gigante, como foi meu amor por ele.”

Se você quiser conhecer mais a história de Angélica e Alexandre Ivo, veja o documentário Out There, dirigido pelo ator Stephen Fry. Está disponível no Youtube e faz um panorama da vida das pessoas LGBT em diversas partes do mundo.

Depoimento de Angélica Ivo

Mãe de Niterói, RJ

Depoimento de Angélica Ivo
"Nascemos com nossa própria identidade de gênero"

“Por muito tempo foi comum pensarmos que as pessoas trans surgiam ou se manifestavam na vida adulta. Ou que tal expressão de gênero estava incondicionalmente relacionada com a forma de adequação/adaptação pelas relações de sexualidade estabelecidas.

Quando nos dedicamos a conhecer a existência trans, percebemos que não se trata de uma mera característica ou de viés de personalidade.

O que descobri e estou em constante aprendizagem é que nascemos com nossa própria Identidade de gênero. Esta identidade pode ou não ter seu lugar de pertença da condição sexual biológica fêmea/macho ao nascer.

Sim. Existem crianças trans! Porque cada ser humano é único. Temos nosso código genético, nossa impressão digital e tantas outras características que nos fazem únicos. Sendo assim, toda vida é preciosa e deve ser respeitada. Quando nós adultos notamos os primeiros sinais de que a identidade de gênero é de alguma forma diferente da constituição biológic,a é muito comum ouvirmos:

– É apenas uma fase! Logo passa!

– Ah… Falta exemplo em casa! Sem uma “educação rígida”, isso acontece!

– Com certeza é o convívio com os irmãos ou crianças na qual há mais empatia.

– A criança gosta mais da mãe por isso deseja se transformar na mãe. Ou o oposto: A criança gosta mais do pai e tenta ser ele.

Ou ainda:

– Houve um “desejo” por parte dos pais que o bebê fosse “um menino” ou “uma menina. “E como não veio como vocês desejavam, essa frustração foi percebida pela criança. Por isso, simplesmente esta criança busca agradar aos pais. É um jogo de imitação!”

Precisamos abrir nossas mentes e nossos corações. Uma pessoa trans pode passar a vida inteira em negação, ocultando/anulando sua existência. Muitos adultos trans revelam que desde suas primeiras memórias são exatamente como se sentem. Portanto, trata-se de ser e ter o direito de existir em sua plenitude com todas suas garantias e direitos de cidadania.”

 

Depoimento de Vanessa Siegel

Mãe de Maringá, PR

Depoimento de Vanessa Siegel
“Cuida da sua vida porque a minha está divertida”

Há cinco anos, a mãe pela diversidade de Porto Belo, Santa Catarina, Telma Issa de Freitas, decidiu se antecipar às fofocas dos conhecidos que, ela sabia, iriam acontecer depois que o filho passasse a se apresentar como a drag queen Maldita Hammer. Ela e o filho – hoje, filha – publicaram uma foto nas redes sociais em que deixavam claras duas coisas: sim, ele se montava e sim, ela apoiava.

“Gosto de cortar o mal pela raiz. Vou publicar essa foto logo no Facebook e aí acaba com todo comentário, toda pergunta”, lembra Telma. “Nessas horas, gosto mesmo do enfrentamento: sim, ele se monta como drag e está tudo bem.” Telma lembra que as pessoas têm muito preconceito em relação ao universo das drag queens, associando-o à prostituição.

A estratégia tem ajudado Telma a lidar com a opinião alheia desde que sua filha, aos 12 anos, então um menino, se declarou gay. Jovem adulto, com pouco mais de 25 anos, ele passou a se vestir de drag e fazer shows. Recentemente, o filho de Telma se revelou uma mulher trans. “Tivemos três etapas de mudanças. Para evitar conversinhas, eu sempre deixei muito bem claro que eu amava e apoiava meu filho gay e drag. Da mesma maneira, que eu amo e apoio minha filha trans.”

Depoimento de Telma Issa de Freitas

Mãe de Porto Belo, SC

Depoimento de Telma Issa de Freitas