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Depoimento de Ana Lúcia Villa

Sou mãe de duas meninas lindas, as quais eu amo e das quais tenho muito orgulho. Mas já fui mãe de um menino, ou pelo menos era o que achava.

Tenho uma filha de 24 anos. Há cerca de seis anos, durante uma bronca que lhe dei sobre o valor gasto em uma lanchonete que adora, ela me revelou ser pansexual. Na hora fiquei meio sem reação, não entendi muito bem e tentei levar na esportiva, continuando com a bronca sobre o valor. Mas depois me questionei muito. Não serei hipócrita: me questionei onde havia errado, se a culpa era minha, sobre o motivo disso estar acontecendo, se seria uma fase… até que caí na real e percebi o quanto era importante aquela informação, para mim e para ela. Para ela era o momento de se abrir, de ser quem é, de ser sincera com a mãe e com ela mesma. Para mim era um momento de aprendizagem, de compreender a existência do amor na essência, sem precisar ver se é homem ou mulher. Aquela adolescente me ensinou sobre amor e me preparou para o futuro.

Minha filha caçula, eu a identificava como meu filho. No início da pandemia, em janeiro de 2020, em uma noite chuvosa, indo ao metrô no retorno da faculdade para casa, minha filha me disse que era uma menina trans. Mais uma vez, me vi em situação de testar se realmente seria uma pessoa sem preconceitos, de testar o amor pelas minhas filhas. Levei um choque, nunca havia conhecido uma pessoa trans, mas minha filha mais velha já havia me ensinado muito, principalmente sobre acolhimento.

Dessa vez, eu não poderia errar nisso: em pouco tempo busquei uma amiga de quem, coincidentemente, o filho trans também havia se declarado fazia seis meses. Busquei ajuda de diversas maneiras para entender como poderia auxiliar minha filha, como poderia protegê-la. Mas ainda não estava totalmente confortável. Mais uma vez, me peguei questionando em que havia errado; vi as estatísticas, histórias e morri de medo, pois ela poderia viver por apenas 35 anos, poderia sofrer diversos tipos de violência.

Um horror enorme correu pela minha mente até que caísse novamente na real. Não havia errado em momento algum para que ela fosse uma menina trans, mas eu estava errando naquele exato momento, em todos os meus pensamentos. Naquele momento eu errava, e errava por não questionar a sociedade por falta de respeito, segurança e liberdade. Na verdade, minha filha estava correta, havia sido corajosa de se respeitar, de parar de fingir ser um menino: sempre fora uma menina. Comecei então a me questionar: como não havia percebido antes, e como eu a havia deixado sofrer por tanto tempo. Acabei não respeitando muito o tempo dela, e falei para algumas pessoas da família que era uma menina trans, e lhes disse seu nome verdadeiro.

Errei, mas por amor, por orgulho, como quando anunciamos uma gravidez: é como se eu estivesse grávida da minha caçula. Tive o luto do meu caçula. É um turbilhão de pensamentos, de emoções, de questionamentos, de medos. Nessa busca por informação e ajuda, minha amiga me apresentou as Mães pela Diversidade. Ainda bem: nas Mães achamos pais e mães que já passaram por algo semelhante, ou estão passando. São pessoas que se juntaram com a finalidade do acolhimento, do amor. Acolhi minhas filhas e fui acolhida pelo Mães. Encontrei carinho, compreensão, apoio, informação, indicação e muita força. Percebi que aquele mundo, que para mim era novo, na verdade sempre existiu, mas meus olhos estavam fechados.

Hoje sou uma pessoa muito melhor. Minhas filhas me ensinaram, abriram meus olhos, mostraram o quanto o mundo é diverso, e colorido, e lindo. Estamos fazendo a transição da minha filha com muito apoio de algumas pessoas da família, com muito amor. Nem sempre é fácil, mas caminhamos juntas, aprendendo. As pessoas que se envolveram e nos apoiam só ganharam, cresceram, se fortaleceram. Nessa caminhada, percebi que a transição, ou entender a pessoa LGBTQIA+, não precisa ser algo sofrido, dolorido, nem triste.

Nas Mães, e com as Mães, vejo que podemos mostrar ao mundo a beleza da diversidade, podemos apoiar famílias que estão ou estarão no mesmo processo. Prometi a mim mesma sempre levar ao mundo, onde eu estiver, a beleza e o respeito à diversidade. Gostaria que nossas experiências, nossas histórias e o nosso crescimento servissem para mudar o mundo e torná-lo mais saudável.

Gostaria que pudéssemos mudar as estatísticas de vida até 35 anos das pessoas trans. Sou imensamente grata às minhas filhas por terem me ensinado tanto, por serem tão fortes e maravilhosas. Sou grata ao Mães por tanto apoio, acolhimento, por não permitir que nos sintamos sozinhas em nossa caminhada e na busca pela beleza da vida, com a diversidade de pessoas que nela existem. O mundo colorido, feliz e com respeito é minha busca, meu propósito.

Hoje seguimos nos construindo e reconstruindo. Minha filha, cada vez mais feliz com o progresso da transição, cada vez mais confiante: as dores foram aprendizados, pois queremos viver toda a beleza, as alegrias e as descobertas desse processo, da nossa transição, porque nós que a apoiamos e seguimos com ela também estamos em transição; as avós, que são idosas, oferecem todo o apoio às lindas netas; os tios e tia curtem, vibram e seguem lado a lado apoiando; o padrasto cuida, apoia, orienta, puxa as orelhas das meninas e eu sigo aprendendo, babona, mãe coruja e Mãe pela Diversidade.

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